quinta-feira, 25 de março de 2010

TEMPO

Arrume um tempo
pra vida
antes que a morte
seja

Desarrume o arrumado
viva
pelo menos uma vez

Pernas pro ar
o mundo
As chances são poucas
e o tempo escorre
inadiável

Não me pergunte
o que tém
no fim do labirinto

Se tém retorno
ou não
esta viagem

A História
atropela os indecisos
e é carro alegre
acima do bem
e do mal

Arrume um tempo
pra vida
antes que a morte...


Luiz Antonio Ferraz

ANOS DEPOIS

Essa sala de tralhas
afana meu ar...
Um bago de morte
rola quieto
no umbigo da noite

Nosso sonho ruiu
nosso jogo acabou...
Nossa espera
é um ranço
águas turvas
rachadas...

Um dia qualquer
não sei quando
findo o último ato
toco fogo na casa
me dano de vez...


Luiz Antonio Ferraz

sábado, 20 de março de 2010

JOGO DURO

Você quer
não quer
querendo
você quer
jogo duro
artérias esticadas
no brilho metálico
da manhã...

Veias verdes
na turquesa
água prateada
seios de vitral
o cinza da onda
dança teu corpo
de ninfa lunar

Os dedos
d'aurora
escondem
a Lua Crescente
um galo negro
canta...

Você quer
não quer
querendo
você quer
jogo duro
artérias esticadas
no brilho metálico
da manhã...

Luiz Antonio Ferraz

ESCRAVOS MODERNOS

Somos escravos modernos
das caixas de morar
do desodorante
da mustarda
do ketchoup

Temos beijos
programados
odores
cores
dores
corredores aprontando nadas...

Somos civilizados tristes
civis agonizantes
loucos solitários
amantes da compaixão
patéticos sem graça
esquecidos da fôrça...

Luiz Antonio Ferraz

BARBÁRIE

Sem rei
lei
nem ordem
cago pro pai da horda

Não me venha
com conversas
de papai-mamãe

Sou máquina desejante
escorrendo fluxos
de irrazão

Meu corpo pleno
sem orgãos
vagueia
trespassado pelo bio-poder
sou negro
buda
sade
deus
um puto !

Desterritorializo teu Édipo
Teu monoteísmo tomista
Tua dialética morta
babo libido
deliro fluxos...

Luiz Antonio Ferraz

LIMIAR

Meu lado anjo
é uivo de lúcifer
na bruma

Meu lado lúcifer
é anjo
no espelho partido

Meu daimon angélico
adaga rasgando
o ventre do dia

O sangue escorre
fluxos no limiar
grades no fim

Meu daimon angélico
é vertigem
no fundo do beco
muros...

Luiz Antonio Ferraz

LOST HORIZON

(À Danilo Ferraz, Cometa Belo, In Memorian)

Falarei da minha viagem sem retorno
à terra dos homens ocos
dos continentes sem dias
de um Planeta
onde a morte é pela água
dos santos empalhados
de Zaratustra em seu trono de fogo
sobre 2 leões flamejantes
e a águia real triturando a serpente

A Lagoa de Maricá
começa no Ganges
contém o Nilo
espalha-se pelo Amazonas
em anarquia solar
atravessa os becos de Katmandu
e banha as ruínas de Cuzco
Ah! espelhante
impressionista
alaranjada lagoa
míticamente
grávida do Todo...

Teus dedos maravilhosos
de duende alucinadamente rebelde
soft
Havaí
Flamenco
dedilham águas do amor...
linhas d'água
Dum
Mar
Moleque
Dan

Não existe
e nem existirá never
promessa
dever
ou algo como
a milenar culpa cristã

E eles não viram
quando o sol beijou o mar
atlânticamente
em Grumari
eles estavam de terno
são os filhos de Proteu
senhor da Clã Cibernética
eles são os amantes
do pesadelo
acrílico
refrigerado

Nunca exercitaram a dança
em gelo liso
não conhecem Zaratustra
são amebas escravas
da terra desolada
onde não existe Sol
e os homens
têm ciúme da morte
eles são os mumificados
do Planeta Cinzento
só os loucos
sabem ser gelo liso
pra quem os dança bem...

Não te quero
me quero
não te amo
me amo
goodbye to romance
once upon a time
uma Terra
onde o Cosmos era Um
e os animais brincavam com os homens...

Havia deuses
fogueiras
e palavras como
Mentira/verdade/Deus único
não tinham sentido
o Tempo escorria solto
e misturava-se com o Todo
o presente era o Tempo
passado-futuro
não havia limites
o caminho que sobe
e o caminho que desce
são Um Único e mesmo
a vida era ciclo dinâmico
partureando auroras...

Once upon a time
uma Terra
onde as formigas
roíam o tecido das maravilhas
e a angústia
mesclava-se ao ar...

Na Terra dos Homens Ocos
os patrulheiros Never Say Die
vasculham os guetos
à caça
de nossos pelos alados
de nossos míticos sonhos
de nossas cabeças pensantes...

"Cuidado Brother
cuidado sábio senhor
quem pensa
pensa melhor calado"

Once upon a time
uma Terra
onde os Alquimistas
buscavam obstinadamente
a Pedra Filosofal
o Bruxo sobre a Figueira
à frente da Caverna
segura o Papiro
no centro do Pentagrama...

Caress of Steels
Mr. Crowley
os guerreiros do Planeta Argus
não têm rosto
usam pele de rato
e plumas de corvo...

Uma enorme Coruja Cósmica
erra sem destino
pela Noite dos Tempos
Fly By Night
you can't kill my dream
I am the Mother Earth
Remenber Dan ?


(meu filho muito querido... quanta saudade...)


Luiz Antonio Ferraz

sexta-feira, 19 de março de 2010

POR UM URGENTE RETORNO À BÁRBARIE

Teu amor
desterritorializa-me
no absoluto
reterritorializa-me
no relativo
o pensamento é vertigem...

Teu amor
produz a utopia libertária
no aqui-agora
transição
da
des
herança
pra esperança
da Terra Nova
onde o ser
É Continente...

Teu amor
é revolução
como sobrevôo
absoluto
constante relançar de lutas
pra cada luta traída...
revolução
não como sonho
mas como movimento infinito
que torna melhor o presente

Teu amor
me arranca
do culto medíocre da necessidade
e me projeta
no maravilhoso
inferno da contingência...
me arranca
do culto das origens
e me afirma
como potência de um meio
onde a fundação se inscreve

Teu amor
me joga nas linhas de fuga
que se desdobram em devir
onde estruturas implodem
e a certeza
é não sei...

Teu amor
cósmica
conjunção
mulher
você
desterritorializa
o relativo e o absoluto em mim
reterritorializa
o homem novo
um teu cometa
navegando
a carne da contingência...

O acontecimento amoroso
é da ordem da imanência infinita
onde a certeza implode
em múltiplas e diferentes afirmações
não mais o eu do idiota cartesiano
mas a dialética negativa anti-hegeliana
que afirma um construtivismo
e um perspectivismo
solda infinita das diferenças

O acontecimento amoroso
desterritorializa o capital no relativo
fazendo-o voltar-se contra si
e no limite supremo
convoca os amantes
à uma Nova Terra
à um Novo Povo
ao retorno de Ulisses
à nova Sociedade de Irmãos
à redescoberta da democracia
dos diferentes

O amor
é combate
ao comércio do espírito
ao conceito visto como mercadoria
à sociologia do desinteresse
que produz uma estética
e uma ética do falso
ao marketing
que se apropria do conceito
ao publicitário medíocre
que se traveste de conceituador
poeta e pensador

O amor é ritornelos
revolução
entusiasmo no pensar
infinito no aqui-agora
nada de racional ou razoável
implosão do compasso de espera
dobraduras
no sobrevôo da imanência infinita
iluminuras da fundação
revolução
como terna conjunção dos diferentes...

Luiz Antonio Ferraz



BODAS DE SANGUE

"A tua boca junto à minha,
oh! estrela, a cigana
sob o ouro solar do meio-dia
morderei a maçã.
... há uma torre moura,
da cor da tua carne campesina
que sabe a mel e aurora.
... por que me deste
cheio de amor esse teu sexo
de açucena ?
...a tua boca junta à minha,
oh! estrela, a gitana
deixa-me sob o claro meio-dia
consumir a maçã...
(Garcia Lorca)


Rubras rosas
lábios rubros
do meu amor

Bendigo o tempo
que nos perpetuou
espelho
par de diferenças
gravidez
vária unidade
a se afirmar...

O desejo me queima
a paixão me lambe
hora como incêndio
hora rio
à desaguar
hoje-ontens

Minto que estou calmo
mas ardo...
Tento Mozart
o amor
é como doce adaga
que afaga
e corta...

Te conheço
desde tempo
onde impossível
precisar começo

Te namoro
desde era
em que o amor
diluía-se
no Éter...

Te espero
desde tempo
em que os homens
conversavam
com os animais

Te advinho
desde época
em que havia
duendes e princesas

Roubamos
o fogo dos deuses
pagamos preço
durante tempos

Os deuses
outrora implacáveis
renderam tributo
à força do amor

Rouca
Louca
Ariana dos meus delírios...

Feitiço
definitivamente
desfeito
podemos
debaixo do meio-dia solar
morder
serenamente
a maçã...

Luiz Antonio Ferraz

BRIANCADEIRAS DE AMANTES

Desejos molhados
de noite de lua ...
Densa floresta
que esconde dedos ...
Cartas de tarô
na cama...

As imagens
rodopiam
como filmes
simultâneos
convergentemente
soltas
no entre
tecer
que se deflui
implosão luminosa ...

Corpos de baile
coplas azuis
filetes de luz solar
rasgando
o ventre
d'aurora...

O par dançarino
forma um só corpo
com a cama
e os lençóis...

Imersão de odores
assusta
d'oura
cavalgada
sincronia de gemidos
nervos esticados
na pele da manhã...

Corpos
melo
molhes
grávidos
de fadiga muscular
de Fêmea/macho
mítico
De
Flu
Ir
Se
em sono ...

Luiz Antonio Ferraz

AMAR INTRANSITIVO

O amor é terapêutico
Se
Re
Des
Vela
Verdades
Se adentra
Rasga
Sulca sombras
Máscaras sutis
Rios
De claro-escuro

O amor
Regenera o tecido do ser
Nudifica o obscuro
Dessacraliza
A perversa armadilha do Id

O amor nos permite
Olhar os ratos
como ratos
Sentir a sujeira
como coisa ruim

O amor nos
Re
Concilia
com o passado
E nos lança
ternamente
no coração do presente

O amor
é amar
de mar
e mó
É cego rugido
na certeza do desvendar ...

O amor
é crédito
no eu e tu
inda que o mundo
descreia...

O amor
é bússola anárquica
navegando a carne
de luas e sóis
na certeza inadiável
do devir ...

Luiz Antonio Ferraz

CARMEN

(Pra Carlos Saura, Pro Corpo da Mulher, Pro Flamenco)

Não acorde
tigres em mim adormecidos
Não dance na noite escura
Com punhais que rasgam
os sete véus
do meu sonho insone...

Andaluz
Andarilha
Moça andorinha
Explícito mistério
A linha é sem fim
Pés e peitos
bocas e mãos
Cão andaluz ladra pra lua

Lúcida
Alva
Luz de lua
Plena plana
Colcheia a cor
Saias e cheiros
implodem a arenga
castanholas e gritos
ecoam
na noite feita

O Flamenco
É a mulher
Enquanto Fenda Cósmica
Ventre desejante
Alma gitana
Açoite de prazer
Rubras artérias
Rios do desejo
No corpo que ri...

Ancas de potra selvagem
Céu vagiu
vagindo
Varreu o sono de séculos
E o que não morreu
teima e queima
Que o fogo transforma
e toma
E a chama inflama
Toma o que quer
decide o que dar
e vai ...

Flores vermelhas
repousam entre os peitos
feitos pro sim ...
Rubras saias rodopiam
e desnudam coxas
prontas pro embate...
Flor vermelha
como cravo fincado
no negrume dos cabelos

A canção continua
como onda que se espraia
em véu de rendas ...
Como noiva sedenta
em noite de lua cheia ...

Luiz Antonio Ferraz

BECOS

O lamento do saxofonista cego
Funde-se à tarde de sábado
Aos bêbados e às putas
Da Rua do Ouvidor

Na Praça XV
A zabumba
O triângulo
A sanfona
Cantiga de ave ferida
Nordeste que teima...

Meu povo
Meu povo
Eternamente de pé
Contrariando o hino
Sem berço
Sem Mar
Sem Céu
Dureza amarga
Puta que pariu
Chega !

E a volta
Das bôcas rubras
Rangendo a raiva antiga
E o gol anulado
O juiz ladrão
Carnaval adiado
E um merda fincado
No cu da noite

Meu povo
Meu povo
Eternamente de pé
Contrariando o hino
Sem berço
Sem Mar
Sem Céu
Dureza Amarga
Puta que pariu
Chega !

Luiz Antonio Ferraz


E LA NAVE VA

A cidade
fulge fugaz
A tua imagem
Age
Acre
Louca margem

Luzindo
Ferindo
Implodindo
Minha retina cansada
do brilho matinal

Meu corpo
Sono
Lento
De noite vaga
Desperta

A cidade
Assoma
Louco soma
Ácida lâmina
Acirra o talho

Lucidez afiada
Cortando o ventre
Da névoa ...

Luiz Antonio Ferraz

AS BODAS DE ARIANA

"O tempo é o rio que me
carrega, mas eu sou o rio ;
é o tigre que me rasga, mas
eu sou o tigre ; é o fogo que
me consome, mas eu sou o fogo..."

(jORGE LUIZ BORGES)

Quem além de mim
Sabe quem é Ariana ?
Ariana amou Teseu
E o fez libertar-se dos fardos
Desatrelando-o
Para o banquete do Acaso

Enquanto a mulher ama o homem
Como mãe/irmã/esposa
Ela é apenas
A imagem feminina do homem

O feminino representa aqui
O espírito de vingança e o ressentimento
Que animam o próprio homem

Mas, vejam
Ariana é o poder feminino liberado
E afirmativo
É reflexo de estrela
Anima Primeva

O Eterno Retorno
É um anel nupcial
Um espelho de núpcias
No qual a alma
Se espera
Mira-se
E reflete o outro

Por isso Dionisos quer uma noiva,
A Eternidade, Mulher Amada,
Ariana é a noiva,
O poder feminino que ama...

Só a Anima
É capaz de nos reconciliar
Com o inconsciente,
De nos dar o fio condutor
Pra sua exploração

O labirinto
É o cerne do eterno retorno,
Circular, não é caminho perdido,
Mas caminho que reconduz ao mesmo ponto,
No mesmo instante
Que foi e será

O labirinto é devir
Afirmação do devir,
Fio de Ariana,
O labirinto é Dionisos,
Afirmação da afirmação

A afirmação é Dionisos,
Ariana é espelho, noiva,
Reflexão,
Diferença na afirmação

Estes são os aspectos
Do querer dionisíaco,
Dionisos/Ariana,
Poder que afirma vida,
Rio do eterno retorno,
Múltipla combinação
Do jogo de dados
Acaso interminável
Que nada abolirá...

Luiz Antonio Ferraz

EU ME LEMBRO...

Outono da minha maldade
artérias e vasos azuis
musgo e plantas aquáticas
num antigo tanque de carpas

De onde vêm essas lembranças ?
A primeira gazeta de aula
O gosto intenso do sorvete de açaí
As idas ao cemitério no final da tarde
com minha mãe
O sabor sumarento das mangas...

Uma cuia de tacacá com jambu
um tucunaré frito
comido no fim de tarde
À beira do Rio Araguaia

De manhã
tapioca, manteiga de lata e café
fumo de rolo em espirais
embalo de rede
o prazer de não pensar em nada...

As horas desaguavam no nada
os espíritos brincavam nos quintais
de biribás, abricós e pitombas

Havia pilões e vovós-mamães-grandes
Amas de leite e folguedos vários
Havia uma luz meridianamente linda...

Havia um que de Brasil-Colônia
Em cada canto
As águas cristalinas do Negro
Flertavam dengosamente
Com o Solimões
Os botos celebravam a Festa das Moças Novas

Havia dabacuris e Quarups
O brilho dos corpos pintados com urucum
para o combate
A lassidão e a preguiça
das brincadeiras na rede...

Tinha o canto de acauã
O trinado do corrupião
E o gralhar das maritacas azuis

Esse país mítico
É o elo que me mantém vivo
É a Terra pra onde um dia qualquer
Eu vou com certeza
Me reencontrar
Com meus ancestrais queridos...

Como dizia Rosa
A gente num morre
A gente se encanta...

Pra Carlito Ferraz
Eterno raro brilhante ...


Luiz Antonio Ferraz


CANTO SOLAR

Companheira
Companheira
Prenha de sol
Janela
Pórtico possível...

Vereda múltipla
Calado
Cálido
Beco

Meta
Amor
Fosse

Chispa no olho
O peito
Em chamas
Chama...

Água de rendas
Beijando
Beira
Asa-Pés

Companheira
Companheira
Prenha de sol
Janela
Pórtico possível...

Luiz Antonio Ferraz

ABUTRES

O meu centro
È um horizonte
de cinzas

A nossa casa
Irmão
Se desarrumou

A poeira
Grassou
Nossas camas

Os corredores
São grandes
Demais

O mato
Tomou conta
Da nossa casa tão bela

E eu não sei
Que dia é hoje
Se chove
Se faz sol
Ou se tém mar

Lá fora
Os abutres famintos
Em volta dos pórticos
Das nossas janelas

E eles querem
Nossa cabeleira negra
Tão negra
Nossa carcaça frágil
Nosso sonho de Adão...

Luiz Antonio Ferraz

QUINTAIS

Menino
Satã
Ninava

Acre
Vermelha
Grei
Polpa

Pitombas
Jasmins
Abricós
Touceiras

E a vida
Escorrendo
Sôlta

Reside
Rei
Rêde
Loca

Mata
Linguagem
Louca...

Luiz Antonio Ferraz