sábado, 31 de janeiro de 2009

OS VIVOS E OS MORTOS

Nada é tão morto

Que não esteja vivo

Nada é tão vivo

Que não contenha morte



Pulsões impressões

Roteiros de vida

Me pergunto

Que elementos

fundam

constroem

Um ser humano ?



Quais os limites

Do que é vivo

E do que é morto ?

Será isso possível ?



Penso na minha infância

Primeira gazeta

Tarde de sol

Roupa de marinheiro

Botas pretas

e o sorvete de graviola



Assoalhos de tábuas corridas

Minha casa

Espíritos

Fundo de quintal

O dinho...



Frescor de pitombeiras e abricós

Pé de cupuaçu soturno

Onde entes habitavam



Prazer secreto

De todo dia

Às seis da tarde

Subir no cume

Do pé de abil



Brincar

Manuseio do sexo das meninas

Quintal do fundo

Frisson de mato - menino...



Lentidão das horas esticadas

Em torno do fogão de lenha

A cozinha

Histórias de Vovó Mamãe - Grande



Madá Madalena

Mãos ágeis

Na feitura dos bolinhos

De baião de dois...



Bule de café fumegante

Tempo que deságua no sono...



Minha mãe

Toalha

Corpo

Cabelos

Indo do quarto à sala de jantar

Onde a luz pálida da clarabóia

Iluminava a cristaleira

E a mesa de centro...



Vadear o quintal do vizinho

Cheiro de marmelo

Prazer conseguido nas primeiras bananeiras

Onde o demo brincava de sedução...



Tinha o tanque

De águas escuras e limpas

Tanque com musgos

Mistérios desse tanque

Sempre cheio

D'Agua de chuva de todo dia...



Tia Lucila

Bermudas boné

Me ensinando a empinar papagaios



Mexira de porco

Curtida na banha

Que Vovó Mamãe Grande

Comia com farinha d'água



Café pilado em casa

Fumo de rolo

Mascado e cachimbado de cócoras

Abacate comido com açúcar

E farinha d'água...



Me lembro do dia

Em que meu irmão betinho morreu

E minhã irmã Luiza Helena nascia

Vida e morte misturadas no tempo...



A Barca de Riobá carrega meus mortos

Que navegam na cauda do éter

Os vivos

As vezes

De morte doentes

Continuam...



Como dizia o velho Pound

"Vida nem morte

É a resposta

Homens procurando o bem

Fazendo o mal

Onde os mortos caminhavam

E os vivos

Eram feitos de cartão"...



Como Proust
A idéia de construir
Minha casa druídica
Não me abandona

Ela me permitirá
Reencontrar
Captar
minha vida e o outro em mim

Nesse momento
A página da maturez
Pousará no nascimento
Uma cuia de Tacacá
Me dará a chave
Do Tempo Redescoberto...


Luiz Antonio

Jan. de 2009

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