Nada é tão morto
Que não esteja vivo
Nada é tão vivo
Que não contenha morte
Pulsões impressões
Roteiros de vida
Me pergunto
Que elementos
fundam
constroem
Um ser humano ?
Quais os limites
Do que é vivo
E do que é morto ?
Será isso possível ?
Penso na minha infância
Primeira gazeta
Tarde de sol
Roupa de marinheiro
Botas pretas
e o sorvete de graviola
Assoalhos de tábuas corridas
Minha casa
Espíritos
Fundo de quintal
O dinho...
Frescor de pitombeiras e abricós
Pé de cupuaçu soturno
Onde entes habitavam
Prazer secreto
De todo dia
Às seis da tarde
Subir no cume
Do pé de abil
Brincar
Manuseio do sexo das meninas
Quintal do fundo
Frisson de mato - menino...
Lentidão das horas esticadas
Em torno do fogão de lenha
A cozinha
Histórias de Vovó Mamãe - Grande
Madá Madalena
Mãos ágeis
Na feitura dos bolinhos
De baião de dois...
Bule de café fumegante
Tempo que deságua no sono...
Minha mãe
Toalha
Corpo
Cabelos
Indo do quarto à sala de jantar
Onde a luz pálida da clarabóia
Iluminava a cristaleira
E a mesa de centro...
Vadear o quintal do vizinho
Cheiro de marmelo
Prazer conseguido nas primeiras bananeiras
Onde o demo brincava de sedução...
Tinha o tanque
De águas escuras e limpas
Tanque com musgos
Mistérios desse tanque
Sempre cheio
D'Agua de chuva de todo dia...
Tia Lucila
Bermudas boné
Me ensinando a empinar papagaios
Mexira de porco
Curtida na banha
Que Vovó Mamãe Grande
Comia com farinha d'água
Café pilado em casa
Fumo de rolo
Mascado e cachimbado de cócoras
Abacate comido com açúcar
E farinha d'água...
Me lembro do dia
Em que meu irmão betinho morreu
E minhã irmã Luiza Helena nascia
Vida e morte misturadas no tempo...
A Barca de Riobá carrega meus mortos
Que navegam na cauda do éter
Os vivos
As vezes
De morte doentes
Continuam...
Como dizia o velho Pound
"Vida nem morte
É a resposta
Homens procurando o bem
Fazendo o mal
Onde os mortos caminhavam
E os vivos
Eram feitos de cartão"...
Como Proust
A idéia de construir
Minha casa druídica
Não me abandona
Ela me permitirá
Reencontrar
Captar
minha vida e o outro em mim
Nesse momento
A página da maturez
Pousará no nascimento
Uma cuia de Tacacá
Me dará a chave
Do Tempo Redescoberto...
Luiz Antonio
Jan. de 2009
sábado, 31 de janeiro de 2009
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