sexta-feira, 11 de dezembro de 2009

Andrade

Ele não usa grife, não deseja ser um manager, não gosta de ternos (nacionais ou importados), não grita com jogadores, respeita a torcida que o adora e apoia. Ele vem dum tempo onde o futebol era leve e a bola escorria pelo Maracanã de tardes inesquecíveis, bola obediente aos mestres pois a bola é caprichosa e só obedece a quem sabe comandá-la com maestria, leveza , elegância. Andrade jogou ao lado de Adílio, Zico, Leandro, Bebeto. Andrade é da geração dos anos 80 do flamengo, uma época em que os volantes tratavam a bola com elegância, magia, carinho, amor e dedicação ao clube ! Tenho saudade desse tempo, sou um saudosista assumido. Com raríssimas exceções não gosto do futebol de hoje : de força, sem plasticidade, maltratando a bola, baixo nível técnico, treinadores de grife ridículos, fracasso do futebol técnico e plástico, treinadores que querem ganhar entre 300 e 500 mil. No meio desse lixo, Andrade chorando no dia da morte do Zé Carlos, foi a coisa mais linda e digna que eu vi nos meus 64 anos de vida !

Um bem te vi baila sobre a tarde do Maracanã, e Andrade, negro, simples, amante do futebol antigo, amigo dos jogadores, é o mais belo e justo hexa campeão ! Eu fico feliz de estar vivo nesse momento !

Luiz Antonio Ferraz

11/12/2009

terça-feira, 3 de março de 2009

AS COISAS QUE PERDEMOS PELO CAMINHO

VOCÊ
FESTA ABORTADA
PROMESSA QUE NÃO SE CUMPRIU
CASTELO DE AREIA
LAMBIDO PELA PRIMEIRA ONDA...

O QUE EU FUI
PÁLIDAS MIRAGENS
ERRANTES DO DESERTO ROSSO...

NA ECONOMIA DOS AFETOS
OS CÃES SÃO OS SERES MAIS BELOS
LEAIS COM AUTONOMIA
LAMBEM TUA FERIDA
E DEPOSITAM SEU AMOR INCONDICIONAL
SEM NADA PEDIR
ALÉM DUM AFAGO AMIGO...

TE TOMEI PELO QUE NÃO ERAS
NÃO ME ENGANASTE
EU É QUE NÃO VI
NÃO VI QUE ERAS FEITA
DE BARRO E CARTÃO
QUE SE DESMORONA NA PRIMEIRA CHUVA...

OS VELHOS OLHAM PRO TEMPO DEVASTADO
COM UM MISTO DE MELANCOLIA E TRISTEZA
FAZENDO UM BALANÇO
DAS COISAS QUE PERDEMOS PELO CAMINHO...

LUIZ ANTONIO FERRAZ

FEVEREIRO DE 2009

sábado, 21 de fevereiro de 2009

AS COISAS QUE PERDEMOS PELO CAMINHO...

AS COISAS QUE PERDEMOS PELO CAMINHO...



VOCÊ

FESTA ABORTADA

PROMESSA QUE NÃO SE CUMPRIU

CASTELO DE AREIA

LAMBIDO PELA PRIMEIRA ONDA...



O QUE EU FUI

PÁLIDAS MIRAGENS

ERRANTES

DO DESERTO ROSSO...



NA ECONOMIA DOS AFETOS

OS CÃES

SÃO OS SERES MAIS BELOS

LEAIS COM AUTONOMIA

LAMBEM TUA FERIDA

E DEPOSITAM SEU AMOR INCONDICIONAL

SEM NADA PEDIR

ALÉM DUM AFAGO AMIGO...



TE TOMEI PELO QUE NÃO ERAS

NÃO ME ENGANASTE

EU É QUE NÃO VI

NÃO VI QUE ERAS FEITA

DE BARRO E CARTÃO

QUE SE DESMANCHA

NA PRIMEIRA CHUVA...



OS VELHOS OLHAM PRO TEMPO DEVASTADO

COM UM MISTO DE MELANCOLIA E TRISTEZA

FAZENDO O BALANÇO

DAS COISAS QUE PERDEMOS PELO CAMINHO...



LUIZ ANTONIO FERRAZ



FEVEREIRO DE 2009

sábado, 31 de janeiro de 2009

OS VIVOS E OS MORTOS

Nada é tão morto

Que não esteja vivo

Nada é tão vivo

Que não contenha morte



Pulsões impressões

Roteiros de vida

Me pergunto

Que elementos

fundam

constroem

Um ser humano ?



Quais os limites

Do que é vivo

E do que é morto ?

Será isso possível ?



Penso na minha infância

Primeira gazeta

Tarde de sol

Roupa de marinheiro

Botas pretas

e o sorvete de graviola



Assoalhos de tábuas corridas

Minha casa

Espíritos

Fundo de quintal

O dinho...



Frescor de pitombeiras e abricós

Pé de cupuaçu soturno

Onde entes habitavam



Prazer secreto

De todo dia

Às seis da tarde

Subir no cume

Do pé de abil



Brincar

Manuseio do sexo das meninas

Quintal do fundo

Frisson de mato - menino...



Lentidão das horas esticadas

Em torno do fogão de lenha

A cozinha

Histórias de Vovó Mamãe - Grande



Madá Madalena

Mãos ágeis

Na feitura dos bolinhos

De baião de dois...



Bule de café fumegante

Tempo que deságua no sono...



Minha mãe

Toalha

Corpo

Cabelos

Indo do quarto à sala de jantar

Onde a luz pálida da clarabóia

Iluminava a cristaleira

E a mesa de centro...



Vadear o quintal do vizinho

Cheiro de marmelo

Prazer conseguido nas primeiras bananeiras

Onde o demo brincava de sedução...



Tinha o tanque

De águas escuras e limpas

Tanque com musgos

Mistérios desse tanque

Sempre cheio

D'Agua de chuva de todo dia...



Tia Lucila

Bermudas boné

Me ensinando a empinar papagaios



Mexira de porco

Curtida na banha

Que Vovó Mamãe Grande

Comia com farinha d'água



Café pilado em casa

Fumo de rolo

Mascado e cachimbado de cócoras

Abacate comido com açúcar

E farinha d'água...



Me lembro do dia

Em que meu irmão betinho morreu

E minhã irmã Luiza Helena nascia

Vida e morte misturadas no tempo...



A Barca de Riobá carrega meus mortos

Que navegam na cauda do éter

Os vivos

As vezes

De morte doentes

Continuam...



Como dizia o velho Pound

"Vida nem morte

É a resposta

Homens procurando o bem

Fazendo o mal

Onde os mortos caminhavam

E os vivos

Eram feitos de cartão"...



Como Proust
A idéia de construir
Minha casa druídica
Não me abandona

Ela me permitirá
Reencontrar
Captar
minha vida e o outro em mim

Nesse momento
A página da maturez
Pousará no nascimento
Uma cuia de Tacacá
Me dará a chave
Do Tempo Redescoberto...


Luiz Antonio

Jan. de 2009

terça-feira, 27 de janeiro de 2009

ANTIGAMENTE

Os homens aprontavam
As canoas e os presentes
Pro Moitará

As mulheres faziam
Caiçuma e Poquecas

Os homens traziam
Tambaquis e Jaraquis
Jatuaranas e Pirarucus

As mulheres
Vestiam as índias adolescentes
Para o ritual
Da festa das Moças Novas

Os velhos
Contavam as lendas
Da origem dos Tucuna

Dos mitos do Sol e da Lua
Das estórias do jabuti
Dos mitos de Metaré

Da lenda do peixe boi
Do mito de Ariana
Do aparecimento do fogo

Os velhos sentados
Em suas muquiras
A aldeia
respeitosamente
Em volta

Os guerreiros
rolavam os tótens
Pro rio
Era o Quarup

Havia na mata
Uma harmonia
Feita de araras
E tucanos
De juritis e japós
De uirapurus cantantes

Mas hoje
Só o Sol teima
Na agonia da tarde
Manteando o Solimões

Não mais botos brancos
A encantar moças
No coração da noite

Invoco Tupã e Maíra
Ajuricaba e Manari
Ergo um Réquiem
Aos velhos ancestrais
Do Povo Tucuna...


Luiz Antonio

Jan. de 2009

sábado, 24 de janeiro de 2009

RÉQUIEM PARA KIKA

RÉQUIEM PARA KIKA

Quando eu chegava em casa
por volta de dez da noite
teu latido forte
fila de coração doce
prenunciava meu chegar

Me lembro das brincadeiras
e do teu medo de banho
do teu pelo caramelado
que brilhava ao sol

Teus olhos amendoados
eram tristes
e paristes Simba e Pandorinha
preservando a linhagem dos filas
do Rancho Fundo

Eu e Mércia
acompanhamos tua agonia
silenciosa
e fostes morrer
debaixo do pé de açaí

A ausência do teu latido
e do teu jeito doce
ecoam pela casa e quintal

Não me tragam Rexs
Rusks ou pastores
eu tenho internalizada
em mim por inteiro
tua presença
ela me conforta
e me dói !

Jnaeiro de 2009

Luiz Antonio

sexta-feira, 23 de janeiro de 2009

POEMAS

Uma Cabeça Obtusa Em Meio A Espaços Vazios

O vácuo
Minha noite povoa
Lembranças sou
Do que deveria ter sido...

Da madrugada
O rastro do Norte
Perdi...

Desapreendido
Intranquilo
Ao sabor das vagas
Coração vagueia...

Do que sou
Ecos ocos
Do que ser
Incógnito...

O você
Não sei se assino
Ou em traças
Assassino...

Mudo
Meu verso...


Luiz Antonio
Jan. 2009


REENCONTRAR

Não há nada de errado
Com a gente
A vida quis assim

A praça e os pombos
O que existe
Atrás das lentes
Nossas vontades...

Meu medo
Teu medo
Não há nada de errado
Em ser voraz
Ou sensato

Futuro ausente
O presente
Aurora de nadas...

Luiz Antonio
Janeiro de 2009

MEU CONTINENTE

Essa manhã
Você me acordou
Feito pororoca
Agitando minhas águas

E eu me perguntei
Que louca invenção
te moldou

Tamarindo maduro
Vinho de buriti
Maíra das águas
A me tragar

Você
Profanamente sagrado
Cristalinamente Negro
Meu porto de Santarém...

Luiz Antonio
Jan. de 2009

AZUL

O sol
Não advinhou
Você


Que
De
Tão só

Lindeza

Voou...


Luiz Antonio

Jan. 2009

quinta-feira, 22 de janeiro de 2009

Futebol : Em Busca do Tempo Perdido


Caramba, saudade imensa do Nogueira, Saldanha, do Carlinhos Niemeyer e do seu Canal 100, do futebol poesia do Garrincha e do Zico ( último craque do futebol brasileiro com certeza ). O resto é o resto ! Saudade do Nelson Rodrigues e do Sobrenatural de Almeida, saudade da Mesa Redonda do Luís Mendes, do Armando Marques, com seu apito estridente e sua dança de toureiro no Maracanã lotado ! Que saudade do Nilton Santos, Rei da zaga, o maior de todos ! Que saudade das pontes do Pompéia, do seu vôo elegante, sem pirotecnias estéreis pra mídia !

Agora me digam, como é que eu vou gostar deste misto de retrancas, volantes que ziguezagueiam pro nada, moscas alucinadas sem objetivo concreto ! Futebol feio, centro-avantes fazendo gols de barriga e canela, futebol refém das paradinhas covardes, assassinas do belo no goleiro, que é o seu vôo pra catar a bola !

Morte do futebol de camisa e vitória do futebol empresa ! Sou um velho chato que gosta de clássicos e que enxerga o futebol como uma arena de touros em Sevilha !

O futebol de hoje é desprovido de dança, ginga, dribles desconcertantes, gols de bicicleta à Leônidas ( na minha opinião, melhor que Pelé e CIA ), não temos mais, zagueiros tomando a bola com elegância e dignidade ! Tostão, sem olhar pra bola, visualizava o gol, colocando a bola na cabeça do centro-avante ! Didi, o mago da bola parada, fazia a redonda dar curva no ar, deixando o goleiro sem mãe e a bola no ninho da coruja !

Cadê esse futebol ? Onde foi parar essa Época de Ouro ?

Ainda teimo, em procurar no futebol, lampejos fugazes da Época de Ouro que se foi !

Sou um velho romântico, que teima em procurar os rastros dispersos desse Tempo Perdido ...


Luiz Antonio


Janeiro de 2009

alguns poemas

PROMETEU ACORRENTADO
Ele
Ladrão prometéico
Fogo claro
Querendo dias
De cem horas
Ser - mente
Semente
Sol - mente
Somente
Sol - lente
Solente
Só - mente
Sol - leito
Sol - eito
Só - leito
Sol - feito
Só - vendo
Só - lendo
Sol - vendo
Sorvendo
Surgindo
Survindo
Surlindo
Sol - lindo
Sorrindo
Só - lindo
Solindo
Na surdina
Rumina
Roubados frutos
Tentando agarrar
O rabo da rima...
Luiz Antonio
Jan. 2009
DOCE PÁSSARO
O silêncio
É um manto
Feito de solidão e noite
Um vazio perdido
No jeito vago
Que foi canto só
Silêncio de grades
Povoando meu sonho
Manhã inquieta
E elétrica
Inferno
Amarelo e total
Ah ! esse vento
Essas janelas batendo
Onde você
Meu violento e terno
Ah ! meu doce pássaro...
Luiz Antonio
Jan. 2009
A HORA DO LOBO
O canto latino
Latindo
Fere a fera
Em meu peito
Que teima
Amigo
É hora do lobo
Amigo
É hora do fogo
A rosa vermelha
Do Lorca
Rompendo a noite
Sem love songs
Pessoa e o nada
Cortando a insônia
É tão difícil
Com o futebol
E cerveja
O samba e a praia
Dom Quixote aos pedaços
Ah ! amigo
Esse vazio
Essa ferida
Que teima em sangrar
Luiz Antonio
Jan. de 2009
COMPASSO DE ESPERA
O telefone tocou
Você rapidamente
Um beijo amargo
Um não poder
Morno tigre
Criança doida
Razão
Anjo felino
E voraz
Ariana rouca
Louca
Minha noite
Rola
E me laça...
Eu guerreiro
Cansado
Cativo
Negra Floresta
Hora escorrendo...
Luiz Antonio
Jan. 2009
TRÓPICO DE CAPRICÓRNIO
Na minha cabeça
Rouge parque
Amarelo cerveja
Morenos olhos
De amêndoa
Navegam
Morena paixão
Me querem
Moreno
Louco de amor
A dor
De saber
Você
Me faz
Ansiar
Boca de noite
Dengosa
Gemidos roucos
Meu cobertor...
Luiz Antonio
Jan. 2009